UMA DELICADA COLEÇÃO DE AUSÊNCIAS - ALINE BEI

sábado, dezembro 06, 2025

 


No momento que escrevo sobre “Uma delicada coleção de ausências”, de Aline Bei, faz exatamente oito horas que finalizei a leitura. Confesso que fiquei sentada na cama analisando mentalmente o que li em três dias e pensando “eu sabia, de alguma forma eu sabia que isso ia acontecer”, e quando finalmente consegui deitar, fiquei rolando pensando “mas que pedrada sutil foi essa da Aline que, mais uma vez, vem pelas beiradas e quando você menos espera foi sugada pela história”.

 

E é exatamente isso. Depois de ler “Pequena coreografia do adeus” fiquei esperando chorar em vários momentos durante essa nova leitura, mas não foi assim. O choro veio como um sopapo bem dado apenas na última página, quando entendi a referência das ausências do título. E são várias, de várias formas, em várias personagens.

 

Apesar de citar alguns personagens masculinos, o foco são as mulheres, suas ausências e seus motivos, velados ou não – aqueles segredos que elas carregam em silêncio, ruminando suas dores e escolhas que não ousam revelar por inúmeros motivos.

 

Quando jovem, Margarida foge com o circo e vira assistente de palco do mágico. Com a convivência diária com os demais artistas, acaba se envolvendo com o palhaço, um caso ao mesmo tempo profundo e arrebatador. É ele quem lhe ensina o poder da quiromancia, que lhe ensina a ler mãos, é ele quem lhe mostra que Margarida deve ficar atenta com os homens e que alguns dos que cruzarão seu caminho não seriam merecedores da confiança dela. Ele diz ainda que ela terá um grande amor, mas só daqui a muitos anos, e que não seria um homem, mas uma menina. E que se envolver com ele estava no seu destino.

 

Quando o palhaço simplesmente desaparece sem deixar uma carta ou um aviso qualquer, Margarida sente que foi abandonada Em uma madrugada o mágico com quem trabalhava e dividia o trailer tenta abusar dela, ela se desvencilha e joga o corpo bêbado no chão. No dia seguinte é expulsa do circo. Decide então, com muita relutância, voltar para casa.

 

Do banheiro, Laura chama a avó por causa do barulho da torneira. Margarida aparece e diz que ela pode tomar banho, que nada vai acontecer e que, no dia seguinte, pedirá para Camilo dar uma olhada na torneira. Com a boneca largada de cabeça para baixo, Margarida vê o interesse de Laura pelo brinquedo morrer. A neta está crescendo. Quando pede para a avó contar histórias sobre sua mãe, Margarida sempre conta a mesma, que Glória era linda e que era apaixonada por música. E quando teve idade para assistir filmes, descobriu que eles eram o melhor lugar para ouvir música, porque ela não ficava solta.

 

Laura pergunta sempre pela mãe, se ela tinha morrido. Margarida diz que não, que ela foi a uma viagem com um homem que conheceu. Laura sempre quis saber do pai, mas nem a mãe havia contado à Margarida quem ele era. Para Laura, ser abandonada pela mãe era pior do que se ela tivesse morrido, mas Margarida diz que Glória ter deixado Laura com ela não era pior que morrer, não era nem mesmo abandonar, porque Glória sabia que Laura ficaria bem.

 

Sozinhas na vida, Margarida tenta diariamente sustentar a neta com a leitura de mãos que realiza na feira, com um par de cadeiras e um guarda-sol montados ao lado da barraca de Camilo por ele mesmo. Camilo é um homem muito bom, sempre ajuda Margarida com o que ela mais precisa, ela pedindo ou não. Ele, que é tão sozinho, sem esposa, sem filhos, sem família. Margarida se compadece pela solidão dele, entende como ele se sente, e um acaba se tornando a companhia e o ombro do outro para os dilemas da vida.

 

Na escola, Laura também tem seus dilemas. Lívia e Jordana são suas amigas, mas é em Lívia que ela deposita toda a sua atenção. Jordana fala demais, é fútil demais, vai ver é por causa daqueles seios enormes até para uma menina da idade dela. Lívia é quase uma continuação de Laura, ambas guardam segredos uma da outra que não cabe incluir Jordana neles. É o momento delas, a sensação que têm de uma pertencer à outra.

 

Laura admira dona Clélia, mãe de Lívia, uma mulher que, do ponto de vista dela, sabia das coisas, além de ser muito bonita. Mas Lívia queria mesmo era seguir os passo de Glória e sumir no mundo. Na opinião de Laura, devia ser porque pesava demais para Lívia ser alguém especial, por isso ela tinha a mesma vontade de Glória de desaparecer.

 

E no meio dos dilemas e da vida rotineira de Margarida e Laura, surge Filipa, a bisavô que há anos não pisava na casa que deixou para Margarida e Glória quando decidiu ir morar em uma casinha no fundo da casa paroquial. Filipa e Margarida tiveram uma relação complicada após a morte de Nelson, ela nunca entendeu o sentimento da mãe que parecia feliz, mais leve e certamente vingada pela morte dele, o que fez com que Margarida fugisse enfurecida com o circo, acreditando que a mãe não o amava.

 

Nelson sempre quis ter tantos filhos e teve apenas uma, por isso ele se revoltou e bateu tantas vezes em Filipa. Margarida tinha cinco anos na última surra que ele deu em Filipa, porque Nelson não poderia suportar que sua filhinha sentisse medo dele, que ela se afastasse dele. Ele não poderia ferir a única pessoa que amava e por isso parou de bater em Filipa.

 

Mas o padre Ângelo entendia Filipa, que sempre foi religiosa. Foi ele quem lhe disse que não há pecado onde há justiça, e que uma viúva poderia sim caber em vestidos longos e escuros, mas que por dentro era o sol, a liberdade. E quando Glória surgiu com aquela barriga sem dono, Filipa aceitou o convite para morar na casa que ele havia oferecido.

 

Aline Bei traz em “Uma delicada coleção de ausências” mais da sua narrativa delicada. É um drama familiar que infelizmente é presença constante em muitos lares. Cada mulher, seja ela ainda uma criança ou já velha, tem a sua dor e os seus motivos para carregá-las ou libertá-las, e são essas dores que moldam o que cada uma se torna. Em um dos trechos do livro, Laura pensa que: “nunca mais ficará longe daquele segredo. de agora em diante, nada existiria sem se misturar com o que lhe aconteceu. eles eram cúmplices (...) enquanto Laura viver, Camilo não morre. (...) imortalizado.”.

 

Aline Bei dedica o livro para os que existem sozinhos, e a dedicatória é propositalmente deixada para o final da narrativa. Na última página você consegue entender o peso de uma única frase, e entende todo o drama das últimas 279 páginas. Finalizei a leitura chorando, mais uma vez, e completamente encantada e apaixonada por mais uma narrativa de Aline Bei.

 

Me conta aqui em baixo se você já leu essa obra e o que achou.

Até o próximo post!

 

UMA DELICADA COLEÇÃO DE AUSÊNCIAS

PÁGINAS: 283

AUTOR: ALINE BEI

EDITORA: COMPANHIA DAS LETRAS

You Might Also Like

0 comentários