O PESO DO PÁSSARO MORTO - ALINE BEI
quarta-feira, dezembro 17, 2025
O primeiro livro que li de Aline Bei, “Pequena coreografia do adeus”, chegou por um acaso, como quem chama
baixinho e diz “Me leva pra casa, você não vai se arrepender”. Trouxe, li,
chorei horrores, analisei minha vida pessoal e a relação que tive e tenho com
minha mãe e, principalmente, me encantei com a narrativa da Aline, que
transforma palavras em poesias. E apesar disso, são sinceras e reais e
machucam.
O segundo livro, “Uma
delicada coleção de ausências”, chegou por insistência. Acompanho a Aline
no Instagram e vi sobre o lançamento do livro que, honestamente, estava ansiosa
para ler. E li, tanto que li suas obras totalmente fora da ordem de publicação,
mas não atrapalhou de forma alguma conhecer a incrível autora por trás de cada
página.
Finalizo a Trilogia Involuntária, que descobri recentemente
ser uma trilogia, apesar das histórias não serem continuações de suas
personagens, com o primeiro livro da série. Publicado em 2017, “O peso do pássaro morto” também nos
transporta para a realidade diária de uma família, com suas lutas, seus erros,
seus acertos, seus dramas, suas alegrias, mas acima de tudo – e repetidamente –
reais. O ser humano não é perfeito, e não há necessidade de falarmos apenas em
personagens de fantasia se temos tanto conteúdo importante, interessante e
sofrido para falar. Há livros que atravessam o leitor sem pedir
licença. Livros que não se contentam em serem lidos, eles ficam ecoando. “O
peso do pássaro morto” é exatamente isso, é uma história que se
instala com delicadeza e, aos poucos, nos dilacera – assim como os outros
livros de Aline Bei fizeram comigo.
Aline
Bei nos convida a acompanhar a vida de uma mulher dos oito aos cinquenta e dois
anos. Não sabemos seu nome e talvez não precisemos saber. Ela poderia ser
qualquer uma de nós. O que uma menina de 8 anos pode perder? A menina que corre
livre, curiosa, que aprende sobre o mundo com espanto e inocência. Mas que
também a pode perder. Foi com a perda de sua melhor amiga, Carla, que ela
descobriu o que significa morrer. E como explicar isso para uma criança? Sua
mãe enfim falou, durante o almoço: “o bife é morrer, porque morrer é não poder
mais escolher o que farão com sua carne. Quando estamos vivos muitas vezes
também não escolhemos. Mas tentamos”. E quando quem tanto amamos nunca mais
volta, acabamos perdendo um pouco a fé em algo maior e acima de nós.
A
adolescente que descobre o corpo, o desejo e, junto com isso, a dor de ser
mulher em um mundo que na maioria das vezes não é gentil e ao qual estamos
suscetíveis às maiores atrocidades, apenas pelo de fato de sermos mulher, de
sermos violadas, principalmente por aqueles que deveriam nos proteger. As
escolhas que são feitas muitas vezes na esperança de que sejam as certas.
A
adulta que tenta costurar os pedaços de si após as perdas, perdas de pessoas,
da inocência, dos sonhos que ficaram para sempre apenas no coração. A adulta
que carrega traumas, mas segue, mesmo quando seguir parece impossível. A luta
diária para ser uma mãe ao menos útil para o filho que tem o mesmo rosto do
pai, uma lembrança diária da violação do seu corpo e que se pudesse ela apagava.
A
narrativa é construída como um longo poema. As frases são curtas, como se cada
palavra fosse escolhida com o cuidado de quem tem medo de se ferir. O texto
respira, pausa, se cala. E nesse silêncio mora o que há de mais profundo. Aline
Bei escreve com a alma exposta, transformando o comum em algo imenso, uma vida
inteira contada a partir das emoções que a sustentam.
É
uma história sobre o peso que as mulheres aprendem a carregar desde cedo: o
peso do corpo, do amor, da culpa, da perda, da tentativa constante de ser forte
quando tudo dentro da gente pede descanso. Mas é também uma história sobre
resiliência, sobre encontrar beleza nas ruínas, sobre a coragem silenciosa de
continuar, mesmo ferida.
Cada
capítulo é uma idade, um fragmento da existência. E em cada um deles há algo
que se perde, mas também algo que renasce. Aline Bei transforma dor em poesia,
mostrando que a literatura pode ser um abrigo para o que não sabemos dizer.
Terminei a leitura com a
angústia que me acompanhou desde o início, com uma vontade de gritar, de pegar
aquela menina no colo e explicar um pouco melhor sobre a vida. De conversar com
a adolescente que foi obrigada a se tornar adulta e mostrar que existiam outras
possibilidades. De tomar um café super faturado com aquela mulher e dizer que
ela fez tudo o que podia, tudo o que estava ao seu alcance, com as “armas” que
tinha nas mãos. Que podia ter sido diferente? Com certeza, mas que existem
coisas que, apesar da dor, precisamos enfrentar, mesmo extremamente cansadas de
enfrentar tudo sozinhas. “O
peso do pássaro morto” nos mostra que viver é, muitas
vezes, aprender a lidar com o que não tem conserto e, ainda assim, seguir em
frente com ternura.
É uma leitura que não
oferece respostas, mas deixa marcas. E talvez seja esse o seu maior poder, o de
nos lembrar que mesmo o sofrimento tem uma forma de beleza, e que o amor, ainda
que frágil, é o que nos sustenta.
Você já conhecia essa linda história? Me conta o que achou!
Até o próximo post!
O
PESO DO PÁSSARO MORTO
PÁGINAS:
240
AUTOR:
ALINE BEI
EDITORA:
COMPANHIA DAS LETRAS

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