Depois de uma ressaca literária com “Uma fortuna perigosa”, foi difícil me envolver com a narrativa de “O crepúsculo e a aurora”, mas com
certa insistência e muita paciência, sem me preocupar tanto com quanto tempo eu
demoraria a finalizar a leitura, finalmente a história me fisgou e eu já não
conseguia mais largar o livro, brigando comigo mesma para fazer as outras
coisas da vida adulta.
“O crepúsculo e a aurora” (2020) é o terceiro da minha lista de
livros de Ken Follett para ler em 2025, e apesar de não ter nada a ver com as
histórias de “Tripla espionagem” (2019)
e “Uma fortuna perigosa” (1993), ele
é praticamente um prólogo de “Os pilares da terra”, lançado em
1989.
Follett nos transporta para uma jornada épica ao fim da
Idade das Trevas, também conhecida como Alta Idade Média, um período da
história européia que se estende do século V ao século X, após a queda do
Império Romano do Ocidente. Aqui, em resumo, vemos uma história de guerra,
muita rivalidade (inclusive entre homens e mulheres), amor e ódio, e marca
ainda a criação da cidade de Kingsbridge, a cidade que dita a trama de “Os
pilares da terra”.
Na primeira parte, intitulada “O casamento”, estamos no ano
de 997 d.C. acompanhando as histórias de vidas que se cruzaram entre a
Normandia e a Inglaterra. Enfrentando ataques dos galeses de um lado e do outro
dos vickings, os homens ingleses no poder fazem justiça de acordo com os seus
próprios interesses, ignorando o povo e, na maioria das vezes, desafiando o
próprio rei, já que sem uma legislação clara o caos reina de forma absoluta.
Com tanta selvageria a ser enfrentada pela população, acompanhamos
o encontro de três jovens: Ragna, a nobre normanda que desafia os pais para se
casar com Wilwulf, o homem inglês pelo qual se apaixona; Aldred, um monge que
sonha transformar sua humilde abadia em um centro de estudos conhecido em toda
a Europa; e Edgar, um construtor de barcos que perde o pai e a mulher que amava
e vê sua terra dilacerada pelos vickings, sendo forçado a se mudar com a mãe e
os dois irmãos para um povoado inóspito.
Os três lutam por um mundo mais justo do jeito que podem,
com as armas que tem nas mãos, lutam por um mundo próspero e livre. O problema
nessa história é Wynstan, um bispo inteligente e extremamente cruel, meio-irmão
de Wilwulf, que vai fazer absolutamente tudo o que for possível para aumentar
sua influência e sua fortuna, mesmo que para isso ele precise assassinar
algumas pessoas.
Na parte “O julgamento”, no ano de 998 d.C., Ragna se vê
envolvida em uma violenta disputa por autoridade, já que todos desejam estar no
lugar do senhor das terras e ficar com sua herança, e qualquer passo falso pode
ser catastrófico. Após alguns meses do casamento, acreditando estar vivendo o
amor da sua vida com Wilf, mesmo após ser mal recebida na Inglaterra, Ragna
descobre por Gytha, sua sogra-madrasta, que seu marido é casado e tem um filho
de aproximadamente 18 anos. Gytha é apenas mais uma víbora que quer controlar
tudo e todos para ter tudo o que deseja, e quanto mais rápido destruir o amor
arrebatador que Wilf sente por Ragna, uma jovem perspicaz, inteligente e
indomável, mais rápido ela irá triunfar, visto que antes da chega da jovem quem
administrava o andamento das coisas era ela.
Descobrir que não pode controlar o marido, controlar com
quem ele tem relações sexuais, vendo que, da mesma forma que a primeira esposa
foi colocada de lado e que ela também pode ser caso Wilf se canse dela, Ragna usa
sua astúcia e seu jeito doce para não perder o interesse do marido, tentando
ditar algumas regras justas de forma delicada, em seu benefício, dos mais
indefesos e na intenção de mostrar a ele as cobras que tem na família, sem ele
perceber que ela é que está mandando Wilf tomar as decisões. Mas Ragna não pode
contar com isso por muito tempo, e também não pode confiar em todos que
acredita que querem lhe ajudar. Além da sogra-madrasta e do cunhado bispo, tem
Wigelm, o outro meio-irmão de Wilf sem um pingo de inteligência, mas com muita
sede de sangue.
Na terceira parte, “O assassinato”, nos anos de 1001 a 1003
d.C., o que já era injusto começa a piorar e minha revolta lendo esse livro foi
enorme. A frieza com que os meio-irmãos Wynstan e Wigelm e a madrasta Gytha
planejam o assassinato de Wilf para tirar ele do poder e destruir Ragna após o
nascimento dos três filhos homens do casal é grotesca. Desde que chegou à
Inglaterra o que Ragna mais sofreu foi injustiça, vinda de todos os lados, mas
principalmente dos homens que se achavam no poder ou que achavam que tinham
direito a ele, ditando regras para seu próprio benefício, indo totalmente
contra as ordens do rei.
A família de Wilf foi uma delas. Após deixar de lado sua
primeira esposa e seu filho, casar com Ragna contra a autorização do rei e
prometer a ela que apenas os filhos com ela herdariam suas terras e riquezas,
colocou todos em uma má posição com o rei. Quando Wynstan e Wigelm conseguem o
que querem, Ragna e seus filhos viram reféns dos dois irmãos e, para me revoltar
ainda mais com a brutalidade dos homens, passa a ser estuprada frequentemente
por Wigelm após ser sequestrada e se recusar a casar com ele por nojo, por não
amá-lo e por saber tudo o que ele fez contra o próprio irmão com as próprias
mãos para obter poder. Casando-se com Ragna, ele poderia controlá-la e além de
ficar com as riquezas do irmão, automaticamente o rei daria a ele o direito de
ser dono das terras.
É revolta atrás de revolta, e quando você vira uma página na
esperança das coisas melhorarem, o mal continua seguindo seu rumo sem piedade
alguma. Durante todo esse tempo, Ragna pôde contar com alguns aliados que de
fato desejavam o seu bem, dois deles eram o monge Aldred e o construtor Edgar,
por quem Ragna foi se apaixonando ao longo dos anos e que a ajudava a manter
seu poder nas terras que herdara no casamento. Edgar, assim como Aldred e
Ragna, luta por justiça, pelo fim dos escravizados, pelo fim dos homens ruins
no poder. Aldred luta para que o bem vença o mal, que os bispos não sejam tão
avarentos e que não abusem do seu poder superior contra os mais pobres.
Na quarta e última parte, intitulada “A cidade” narrando os
anos de 1005 a 1007 d.C., acompanhamos o crescimento da Travessia de Dreng, que
após a construção da ponte de Edgar ordenada pelo rei, passa a se chamar
Kingsbridge. Quando Edgar chega ao local com sua mãe e seus dois irmãos, após o
ataque dos vickings destruir tudo o que tinham, eles encontram uma terra
infértil, um solo improdutível, e seria preciso muito trabalho para conseguir sobreviverem
ali. Com muito esforço a família foi, aos poucos, conseguindo, e a inteligência
de Edgar não fez apenas a família prosperar e ter o seu próprio sustento, mas
com a ajuda de Aldred eles tornaram o pequeno povoado em uma cidade próspera,
com feiras movimentadas, com missas cheias de fiéis e um local onde as pessoas
começaram a desejar se estabilizar.
Não apenas isso, mas aqui vemos o enredo nos levar à
construção da catedral de Kingsbridge, que será tema principal do livro “Os
pilares da terra”, e temos também o desfecho dessa trama que foi tão
revoltante pra mim, com muita injustiça, maldade e abuso de poder,
principalmente com as mulheres e os mais pobres. Follett, como em todas as
outras obras que já li, realiza uma pesquisa histórica detalhada para compor
seus enredos e personagens, e é impossível não ser fisgado pela sua narrativa
que te prende do início ao fim.
Se você gosta de história, trama com uma reviravolta
reconfortante no final e uma pitada de suspense, “O crepúsculo e a aurora” com certeza é uma leitura que você vai
gostar!
Você já leu esse livro ou já
ouviu falar? Me conta nos comentários o que achou!
E se ainda não leu já coloca na
sua lista.
Até o próximo post!
O
CREPÚSCULO E A AURORA
PÁGINAS:
701
AUTOR:
KEN FOLLETT
EDITORA:
ARQUEIRO
